segunda-feira, 12 de março de 2012

O FIM DO MUNDO, ENFIM... FESTIVAL HISTÓRICO OU PALCO DE HORRORES?

Tudo começou em 1982, quando foi realizado no sesc pompeia o emblemático e histórico festival Punk "O começo do fim do mundo", algo talvez insuperável em toda a história no que diz respeito a sua grandeza e importancia no cenario mundial. Naquela época o bicho pegava principalmente entre os Punx do ABC e os punks de São Paulo, e o festival foi uma forma de tentar unir essa punkaiada toda, o que deu certo em partes - pessoas presentes neste festival me garantem que o pau fechou dentro e fora do evento. Até aí tudo bem, era o início da caminhada do movimento punk do Brasil e nada mais oportuno do que alguns acertos com o tempo para todo mundo focar no que realmente importa: O ideal, o porque de usar aquele visual grotesco e agressivo, justificar cada verso que é cantado nos sons das bandas em suas atitudes no dia a dia e na cena, de acordo com a necessidade de cada caso.

O tempo passou... 30 anos! Mostra o quão grande é o punk por todo esse tempo de atividades e resistencia, entre altos e baixos. Altos por conta de quem realmente sabe o que está fazendo na cena. Baixos por conta de pessoas que só estão aí pra fazer seu critério de pensamento prevalecer sobre os demais - nem que seja necessário o uso da violencia desnecessária e gratuita - em detrimento do que seria o "norte" do Punk: União, liberdade e igualdade. Porém esses dois extremos ainda existem na cena. E assim como água e óleo, é impossível de se tornar uma mistura homogênea. Pois um lado quer ver o Punk forte e atuante, correndo atrás de seus objetivos e colocar sua parcela de culpa em cada transformação social positiva para a sociedade, transmitir arte e cultura para todos de sua forma rudimentar através do faça voce mesmo. O outro lado só quer saber de uma coisa, aquele velho mantra de desenho animado sobre escola americana: Briga, briga, briga, briga briga, briga... por causa do que? NADA!

E sabe o que é pior? Quem está inserido dentro do contexto do movimento punk apenas como ouvinte de bandas, pagante de gig ou leitor de blog mal sabe o que se passa nas ruas, nos sons underground mesmo, nos suburbios... afinal de contas entrevistas e documentários dão toda a palavra da história aos protagonistas do inicio do Punk no brasil... e sobre a autodestruição que rola na cena até hoje, é sempre colocado em pretérito mais que perfeito: HAVIA briga, ROLAVA confusão, ACONTECIA muita coisa ruim... e hoje em dia? Está tranquilo né? Porque será? Porque a grande maioria que fala em modo de passado está hoje trancado em suas casas ou pagando de punk velho em motoclube pra muleque com camiseta do ramones... eles mesmo falam: Já foi minha época. Mas a realidade é: a história não é só quem começou, mas sim cada um de nós que atua na cena. A história segue nesses mais de 30 anos e os protagonistas agora somos nós, nossa geração, e nós temos o culhão e a credibilidade de falar SIM que ainda existe a mesma irracionalidade por parte de certos grupos como há 30 anos atrás.

Sim, a violencia se tornou uma espécie de aspecto cultural, um costume do Punk. Pois tudo o que foi destruído e teve que retomar seu devido lugar foi dizimado pela desunião, violencia e intolerãncia por parte de Punks, que deveriam lutar era contra isso, mas, sob o pretexto de "Pegar careca" ou "Zuar pilantra" acaba sempre prejudicando quem não tem nada haver com a missão "heróica" do ser paranóico ávido por uma briguinha. Dentro deste quadro há razões e provas por A + B de que devemos simplesmente sentar e chorar vendo o que sempre teve, passivos e frustrados por ver todo um esforço ir pro saco em função dos motivos idiotas do babaca que briga? Lógico que não!

E o que o festival começo do fim do mundo tem haver com isso tudo??? Rolaram suas "continuações" não menos importantes com o passar do tempo, no inicio da década passada, onde tudo estava em "paz". Continuavam as tretas, as confusões, mas nada disso conseguiu atrapalhar o andamento dos shows. Só que, como em todo ciclo que se renova, estamos em época de reafirmação da cena Punk. Hoje em dia temos de um lado a cena não só Punk, mas Antifascista, com Punks, Skins de coletivos como RASH e SHARP, Regueiros, Rockeiros, estudantes de esquerda e quaisquer pessoas que compactuem pelo ideal libertário, enfim uma cena mais plural, mais variada, mas com os mesmos objetivos. De outro lado temos pessoas que se organizam em grupos que mais se parecem quadrilhas criminosas, com integrantes armados sem ideologia nenhuma, apesar do "A na Bolinha" estampado nos patchs utilizados por eles. Vão nos eventos para ficar só na porta, não curtem banda nenhuma e ficam fazendo a cabeça da molecada com intrigas, convencendo a serem inimigos de pessoas que nem conhecem, para reforçar o contingente de idiotas, além de sempre terem um alvo para "Cobrarem" e se necessário ficam até de quebrada em algum ponto de onibus para pegarem uma única pessoa covardemente num grupinho de 5 ou 10. Simplesmente porque suas "Caças" não seguem seu critério de pensamento, que tentam impor sobre todos na cena. É o puro fascismo com pretexto de pegar fascistas, mas é tudo igual no final. E o bicho tá pegando sim entre esses dois lados, e nada mais propício que um grande Festival punk de graça para esta bomba explodir. O "Fim do Mundo, enfim", é um dos festivais mais aguardados dos últimos tempos, bem como um dos mais duvidosos em vários aspectos. Como assim?

Primeiramente em questão de segurança, já que o dia com mais bandas, por sinal das mais importantes da cena - em termos, pois algumas transitam bem distantes de nossa realidade - será de entrada franca, e provavelmente terá MUITA gente... de todos os tipos, boas e más, correrias e pilantras, yin e yang... E em tempos de renascimento da fênix da violência, mais uma vez um festival Punk pode se tornar uma tragédia anunciada, como ocorreu na porta do show do Cock Sparrer. Afinal, se querem enfiar tudo que é tipo de gente e bicho num lugar só, a principal preocupação antes de colocar "Bandas que chamem público" deveria ser a Segurança dos presentes. Não é apenas colocar uns 6 zé-manés espalhados por todo o Deck do sesc pompeia, mas toda uma logistica, incluindo revista na porta e prestar atenção nos arredores também. Afinal quando dá merda a culpa é sempre dos Punks, mas quem tá por tras do evento se não pode acabar com isso, que tentasse coibir ao máximo fazendo sua parte, mas nem com isso há a preocupação. Talvez se apegaram na fé de que tudo vai rolar bem, Em nome de Jesus, ou pela razão mais óbvia: Muitos envolvidos com este evento simplesmente não vivem o Punk, mas vivem do Punk. Para estas pessoas a cena se resume a eles e a seus chegados, o local mais underground é o hangar 110, e locais dignos de shows são os clubinhos da rua Augusta. Do alto dos seus palcos estruturados e refrescados por cervejas importadas, não tem a minima noção do que realmente acontece na cena que faz o punk estar de fato vivo nas periferias: Quais são as bandas, quem faz acontecer, e as tretas que rolam. Neste cenário de total ignorância esnobe, tudo é lindo, tudo é maravilhoso e todas aquelas vozes que cantam as musicas de algumas das bandas não passam de um monte de gente que comprou seu CD e baixou seu MP3... E quem ainda carrega as paradas nas costas, aguenta moleque chamando de capitalista que põe 5 reais na porta dum som pra cobrir os custos, toma prejuizo, separa briga e ta marcado pra morrer nas ruas por ser contra todo tipo de intolerancia na cena? Esses sim, realmente sabem o que acontece e jogam a verdade na cara de quem acha que o punk é disneylandia, é oba-oba... Mas quem vai ouvir um simples mortal, se a voz ativa e realmente importante é dos "donos da cena"?

Outro aspecto que deixou a desejar: Onde estão as bandas que fazem a cena acontecer de fato? Não desmerecendo as bandas que tocarão nos 4 dias do festival, inclusive uma das bandas que ainda faz a diferença da geração 80 é a Invasores de cérebros, que merece estar presente em qualquer gig que se preze, simplesmente pelo carisma e humildade de Ariel, Luiz e dois representantes da nova geração, Presunto e Limão, que ajudam a manter acesa a chama desta grande banda. Mas parece que só as mesmas bandas tem direito a tocar em eventos "Históricos", as mesmas bandas que monopolizam e decidem quem vai usufruir de uma estrutura melhor se humilhando num hangar 110 vazio ás 6 e meia da tarde pra 10 pessoas como cobaia de técnico de som... O punk é muito amplo, é forte, é grande, mas parece que a intenção desses individuos é limitar a cena apenas a eles e seus amiguinhos, e o resto - que eu prefiro chamar de "quem faz correria pro Punk se manter vivo nas periferias" - é um monte de meras bandas de garagem sem expressão nenhuma, ou "Mulambo" como classificou um pseudo-jornalista puxa saco desse povinho. Mas, como já havia dito, a história continua e está nas nossas mãos. É nossa vez de fazer história. Dos antigos esperamos a "Bênção", para continuar o que começaram, se bem que alguns não só dizem "Amém" ao nosso esforço, como também correm juntos, como o Barata do DZK, grande banda com 30 anos de história que merece sim ser tombada como Patrimonio Histórico do Punk, entre outros anonimos que começaram juntos com os "deuses" do punk e hoje em dia esses mesmos nem olham na cara desses que persistem até hoje sem criar nome em cima de nada, nem ninguém. Mas, para que nossa história tenha um bom andamento, afinal é cedo pra falar em final feliz pois o Punk é Infinito, apesar de sempre estar em rota de colisão consigo mesmo, é necessário que haja respeito, união, colaboração, cooperação e ideologia em primeiro lugar. Mas enquanto tiver um prego no rolê com suas arminhas idiotas, nossa história sempre terá uma mancha de sangue. Jà dizia o grande compositor Zé geraldo: "Toda força bruta representa nada mais do que um sintoma de fraqueza". Quem é fraco um dia cai, e parte do sangue de quem mancha nossa história é justamente dos que derramam sangue dos outros...

Enfim, mais importante do que babar por um festival é zelar por sua própria integridade. E a expectativa não só deve ser pelas bandas, mas pela segurança,responsabilidade de quem se propõe a juntar tudo que é tipo num lugar só. E antes de ficar babando ovo para alguns tipos, faça você mesmo: Valorize o suburbio, sua cena, sua comunidade, seus parceiros de movimento. Não reclame, não critique, apenas contribua, colabore, ajude. A história é nossa, já foi deles e será de muita gente boa que vai surgir ainda nessa cena com o passar dos anos. Para os que vão no som (assim como eu posso até comparecer, sem garantia de voltar pra casa): Um ótimo show e que dê tudo certo. E para os ganguistas sectários e intolerantes: O Punk é nosso e vocês não terão vez.

4 comentários:

  1. Falou tudo! Pedimos emprestado seu texto para torná-lo nosso desabafo contra todo esse lixo que tenta sufocar o Punk: violência, bandas vazias, promotores ganaciosos, drogas, apatia, esvaziamento ideológico entre tantas outras coisas.
    O Punk é forte e sobrevive. Continua vivo nas ruas, nos eventos pequenos, nos zines e blogs da vida, na agitação política e cultural que as pessoas continuam tentando fazer. Esses grandes eventos podem ter uma relativa importância, mas copiando a frase de um grafite que vi num muro na região central, não nos representa! São eventos pra boys, pra pilantras que ganham mesada dos pais, pra mídia, pra quem curte apenas o som, mas não pra nós!
    No mais, ficou foda o texto.

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  2. Infelizmente tenho que dizer "já foi minha época".

    Casei, tenho minha família pra alimentar, e não posso me dar ao luxo de ir ao festival.

    Eu e minha esposa estávamos 10 anos atrás na Lapa, mas fazer o que? Não posso mesmo por minha segurança de lado de forma tão banal...

    Fico triste, posso parecer hipoócrita e você pode até me chamar de N adjetivos, mas é a minha realidade.

    Tragédia anunciada resume tudo, mas torço para que tudo ocorra da melhor forma possível..

    Belo texto.

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  3. Cara... parabéns!!! seu texto está ótimo!!! Li ele logo após a publicação... Mas somente hoje resolvi comentar, já que confirmaram que o evento de domingo esta cancelado... se no domingo não rolar nada... a cena ai esta realmente muito estranha!!! Não sei como são as coisas por ai, mas aqui em Curitiba rola das bandas tocarem em bares menores e tal... É que fico pensando... olha quantas bandas se preparam, ensaiaram, quantas pessoas de fora indo para são paulo prestigiar o evento... e só por que cancelaram o local do show não tem mais nada e tudo fica parado?... poxa... estamos falando da cena punk paulistana... pessoas e bandas (nem todas, como citado no texto) vivem o underground, o faça vc mesmo!!! E agora... o tão sonhado domingo (para muitos) se torna um domingo qualquer!!! É... realmente á fomos melhores nisso... Abraço Feio... sábado passo na loja para pegar umas fuleragens...

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